A Formação Musical

de André Rieu

Do livro Minha Música, Minha Vida, escrito pela Marjorie Rieu, esposa do maestro, podemos ter uma idéia do envolvimento do André com o mundo da música, desde a sua infância:

“Como filhos (André é o terceiro dos seis filhos do Maestro André Rieu Sr.) de um regente, a nós era naturalmente dada uma sólida formação em música.

Isto significava muito mais do que simplesmente ter aulas de violino.

Simultaneamente eu tinha aulas de piano e de gravação; e posteriormente cheguei a tocar o oboé, por um certo tempo.

Uma vez, quando estava no colégio, cheguei a tocar para o famoso tocador de flautim, Frans Brüggen, que pensou que eu tinha algum talento e que estava tendo lições adequadas.

Essas aulas eram dadas em Eindhoven, e então todas as semanas eu tinha de despender uma hora para ir e outra para voltar de trem para minhas aulas de flautim – não era pouco para um garoto que já era ocupado com os afazeres escolares, com o violino e com as agruras da adolescência.

De todos instrumentos, o violino era o meu favorito, que eu estudava diligentemente, e nunca perdia uma oportunidade para ouvir um famoso violinista tocando em algum concerto da orquestra sinfônica dirigida pelo meu pai.

Depois do concerto, eles quase sempre iam até a nossa casa, e cada um e todos eles exerciam uma grande influência sobre mim.

Entre os famosos violinistas que eu via e ouvia estavam Herman Krebbers e Theo Olof (naquela época os dois eram maestros da Amsterdam’sConcertgebouw Orchestra), Yehudi Menahin, Arthur Grumiaux, Leonid Kogan e David Oistrach.

Krebbers se apresentava quase todos os dias com meu pai; eu o admirava mais do que os outros, não apenas por causa do seu virtuosismo, mas especialmente por causa do seu tremendo carisma.

Até hoje tenho orgulho de ter tido aulas com ele.

Desde garotinho eu já sentia vontade de me tornar-me tão famoso como ele, e nos meus sonhos, eu me via de pé nos palcos sob a luz dos holofotes, tocando para uma platéia lotada.

O que provavelmente mais influenciou minha carreira como músico foi mais do que tudo o fato que por anos a fio, eu cantei no coro da igrreja.

Além das aulas em vários instrumentos, e a ida semanal até a sala de concertos para ver o meu pai reger, o coro era parte integrante da minha educação musical.

Todas as tardes de quarta-feira e sábados, meu irmão mais novo, Robert e eu íamos cantar no coro da Catedral de Sint Servatius, regidos por Benoit Fransenn.

Nós o chamávamos, de maneira irreverente, de “o velho do coro”.

Nós nunca estávamos dispostos a ir ao coro, pois enquanto éramos obrigados a ir às atividades do coro, os outros garotos da nossa vizinhança estavam jogando futebol ou fazendo qualquer outra coisa que lhes agradasse.

E nós tínhamos que ir para o coro.

Pra tornar as coisa piores, durante a hora que precedia as atividades no coro, tínhamos aulas de solfejo com “o velho”, que pensava como de ensinava de acordo com um terrível método belga.

Toda semana nós tínhamos de inventar uma desculpa nova para escapar das aulas de solfejo e das atividades no coro.

Se não estávamos com dor estômago ou com qualquer outra doença, então dizíamos que tínhamos perdido nossos livros de exercícios ou os nossos sapatos, ou simplesmente nos escondíamos onde nossa mãe não podia nos encontrar.

Uma vez nós, e nosso amigo Jerome, pedimos desculpas oficialmente, em nome de nossos pais, ao “velho”, mas nossa estratégia não deu certo, e nós fomos obrigados a voltar às práticas no coro com as nossas cabeças baixas.

Meus pais, que já eram muito rígidos em outras coisas, eram ainda mais implacáveis quando se tratava de música.

E tivemos sorte que assim fosse, porque olhando para trás, e nele “o velho” não era de todo mau, e nós fomos muito beneficiados com suas rígidas lições.

O mais louco naquilo tudo é que nós realmente gostávamos, quando finalmente estávamos ensaiando com o coro, e adorávamos cantar na missa principal das manhãs de domingo, e também na missa vespertina.

Por outro lado, eu aos poucos fui começando a descobrir várias garotos adoráveis no coro, e me apaixonando por cada uma delas, uma de cada vez.

E assim, cantar no coro já não me incomodava tanto.

Depois fazer parte do coro por algum tempo, tínhamos permissão para participar da procissão anual da Catedral de Sint Servatius.

Que beleza que era aquilo.

Em resumo, estou convencido de que a base do meu romantismo musical se formou durante aquelas procissões (veja como aquelas experiências marcaram o André no DVD Dreaming, durante a execução do Intermezzo da Cavalleria Rusticana, com cenas lindas de procissão filmadas no ambiente próximo à residência do André, e da introdução do coro na JSO, tanto fixo, como convidados, formados de crianças ou adultos) e das missas do Galo, no Natal:a igreja magnificamente decorada, lotada, o presépio, com suas belíssimas estátuas; os anjos pendurados sobre ele; as tocantes músicas de Natal de Corelli; e o perfume das flores e do incenso: tudo estava em seu lugar e fazia parte de um evento único e impressionante, que, se você me perguntar, tinha muito mais a ver com teatro do que com religião.”