Uma crônica sobre André Rieu

“Crônicas do Cotidiano”

(com sua permissão, João Carlos)

Por João Carlos Lopes dos Santos, Rio de Janeiro, Brasil

“O que é talento?

Talento não se define, não se explica; testifica-se, detecta-se. Contudo, não podemos fugir dos ditames da teoria; talento é aptidão natural ou habilidade adquirida.

Talento me sugere uma inteligência e uma cultura específica excepcionais.

Vou lhes contar duas histórias que definem talento.” (A primeira história refere-se a Sammy Davis Jr.; a segunda envolve André Rieu e seus músicos! – a qual transcrevemos a seguir)

.....“Uma orquestra diferente.

Já de Zaquia Jorge, creio que você nunca ouviu falar. São poucos aqueles que a conheceram.

Vamos, então à segunda história: a de Zaquia.

Durante os dias de carnaval de 2001, estava assistindo na TV uma apresentação da Orquestra de André Rieu. Não sabia nada sobre ela, tampouco de seu regente. Hoje sei e lhes darei uma dica, lá no final da crônica.

Chamou a atenção, isto sim, o fato de que tal orquestra é composta de um número não usual de mulheres, tocando de tudo, de trompete à gaita de fole... O público extasiado - não sei de que nacionalidade era, de pé, aplaudia demoradamente a cada música.

O teatro era enorme. Coisa de primeiro mundo. O público, descontraído, sempre casais, dançava nos corredores e na frente, junto ao palco.

Desfilaram as músicas mundialmente mais conhecidas.

A orquestra ia, indefectìvelmente, de um país para outro. Tudo milimetricamente perfeito. Naquela orquestra, quem toca pandeiro, cuíca ou qualquer outro instrumento, podem crer, é pós-graduado no local de sua origem.

A respeito disso, mais adiante, conto uma história de uma "austríaca" e seu apito.

A hora e a vez do Brasil.

E a orquestra ia passeando pelo mundo, ao som das melhores valsas vienenses, clássicos de filmes norte-americanos, música escocesa, francesa, inglesa, tangos, rumbas, só sucessos internacionais.

Até que, como não poderia deixar de ser, foi anunciada na telinha uma Sinfonia Brasileira. Lenita - para quem não a conhece, minha mulher - e eu ficamos na expectativa das músicas brasileiras que eles iriam tocar.

Primeira e única "mancada" do André Rieu: começou a Sinfonia Brasileira com " La Bamba" que, com absoluta certeza, brasileira não é. Como sabemos, " La Bamba" é do cancioneiro mexicano e de domínio público. Mas, tudo bem...

Depois, veio a "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, o que era de se esperar. Lenita já falava de "Garota de Ipanema", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e outros "hits" tupiniquins, jurando que a orquestra iria terminar a apresentação, apoteoticamente, com "Cidade Maravilhosa", de André Filho.

Aí veio a primeira surpresa: a terceira música do "pot-pourri" foi " Tico-tico no Fubá", de Zequinha de Abreu.

A quarta e última, para surpresa ainda maior, foi "Madureira Chorou", da autoria da dupla Carvalhinho e Júlio Monteiro, acompanhada de um apito de escola de samba, tocado por uma mulher com pinta de austríaca, mas com um talento para nenhum mestre de bateria do grupo especial da Marquês de Sapucaí botar defeito. Isso mesmo: "Madureira Chorou", com a tal "austríca" (trata-se de Manoe Konigs, holandesa legítima, que acompanha André desde o iniciozinho de sua carreira, ainda nos tempos da Maastricht Salon Orkest) arrebentando no apito, lembrando-me até o falecido Mestre André, da "Bateria Nota Dez" de Padre Miguel.

E o show da orquestra do André Rieu terminando, a platéia em delírio, aplaudindo de pé, feliz da vida, e os créditos passando rápido pelo vídeo ao som do pranto de saudade em homenagem à vedete de Madureira.

Por quem chorou Madureira

É aqui que entra Zaquia Jorge. No final dos anos 50, eu tinha uns 15 anos.

Sempre que passava pelo bairro de Madureira, local de comércio forte, espichava os olhos para a fachada do Teatro de Revista Madureira, que ficava em frente à Estação que lhe emprestava o nome. Na fachada, eram exibidas várias fotos das vedetes em trajes, então, ditos sumários.

Além de bela e talentosa atriz, Zaquia Jorge era também a dona do teatro, uma vedete do teatro rebolado, que usava uns maiôs inteiros, um verdadeiro escândalo na época, mas que, se hoje usássemos o mesmo pano, daria para fazer uns quatro biquínis para as senhoras mais distintas da nossa sociedade."

(A Sinfonia Brasileira a que o João Carlos faz referência em sua crônica pode ser vista nos vídeos gravados por André Rieu de suas apresentações em Londres, no Royal Albert Hall, e também em Berlim, no Waldbühne, em uma apresentação ao ar livre; a apresentação a que o João Carlos assistiu, em teatro fechado, é a de Londres.

Essas apresentações estão no vídeo VHS e no DVD "André Rieu Live at the Royal Albert Hall", lançados em 2002, e no vídeo VHS " La Vie est Belle", gravado no teatro ao ar livre"Waldbühne", em Berlim, lançado em 2001.

Tico-tico no Fubá também pode visto DVD " La Vie est Belle", cantado pelas "André Sisters", trio formado por Manoe Konigs (saxofone, gaita de fole, banjo, clarineta), Renate Dirix (saxofone e fagote) e Lin Jong (violino), integrantes regulares da orquestra, especialmente para aquelas apresentações.

Como “André Sisters” elas se transformaram em vocalistas.


Renate de vestido amarelo, Manoe, de azul e Lin, em violeta, no canto esquerdo inferior

Renate Dirix não faz mais parte da orquestra; hoje, Sanne Mestrom a substitui, nos mesmos instrumentos.

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